sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Diário de um bêbado

A idéia aqui era escrever algo em torno do pensamento de alguém alcoolizado. Evidentemente que não poderia estar sóbrio para escrever isso, o que me faz entrar numa situação complicada. Na janela o sol das duas da tarde, a poucos metros a senhora minha mãe lavando a louça do almoço. Preciso de inspiração, vamos lá, loco loco loco melo, Ventania no volume elevado me dá uma força. Chegando na cozinha – Tem coca aí na geladeira? Claro meu lindo negro anjo. Disfarça aqui, copo cheio e duas garrafas de Espuma de Prata debaixo do braço. Será que vai servir? Voltando ao ponto inicial, o locão tava dizendo que o diabo é careta. Pode até ser, mas eu não. Droga, isso aqui tá quente, foda-se, já tomei coisa pior. Tira alumínio, gira araminho e ouve-se um clássico estalo. Putz, teor alcoólico de cerveja, dois copos pra começar, agora é sentar e esperar a brisa chegar, nesse meio tempo cheguei nessa linha, a partir de agora estamos em tempo real.

O que eu ia escrever mesmo? Ai, ai, é por isso que jamais irei terminar meu PIBIC, enfim, mais um copo da rose aqui do lado. 660ml em sete minutos e meio. Entre gole e outro tem umas coisas, cor de laranja, piscando aqui. Opa! É o msn, Murilo e Pijamas dando um alô. A inspiração tá meia boca, assim como esse filtrado que to tomando, mas lá na sala deve ter outra parada, bem tosca, mas deve ter. Dia difícil esse, dei de frente com a suprema, justo hoje que estávamos lembrando do meu tio alcoólatra que morreu. Disfarcei, fingi que estava vendo as horas (detalhe: eu poderia ter visto no computador mesmo), cá estou novamente. Pensa, pensa, pensa, bom, primeiro um perfume para dissimular o cheiro do álcool, e o brasileiro tenta novamente. Aproveita que ela está de costas (calma, não vou encoxá-la) e vamos pegar logo duas garrafas: conhaque e licor de cacau. Sabia que tomando essa mistura o peão não ejacula nem a pau? Bem, é o que dizem. Ah! Vou requintar o ritual e pegar essa taça pendurada.

No caminho de volta, quase na porta do meu quarto ainda ouço – Ary, daqui a pouco você tem médico! Caralho, tinha esquecido. Vai ser punk ouvir o oftalmologista fazendo as comparações: Essa ou essa? Essa ou essa? Isso se nenhum bafômetro me pegar no meio do caminho.

Enquanto eu bebo, o media player com suas barrinhas coloridas continua “fuma, bebe, não pensa em trabalhar”. As coisas vão simplesmente acontecendo, de nada pra lugar nenhum. Sentei aqui pra escrever algo sobre algo, mas agora não tem mais porque fazê-lo. Aquela ansiedade já se foi, agora o que sobra é uma vontade de sorrir curtindo o caminho ensolarado até o doutor. Nossa, to atrasado.

Ary Neto (17/07/08)

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