sábado, 25 de dezembro de 2010

Para Entender o Abandono de Animais no Campus: o que tenho a ver com isto?

Profa. Dra. Valéria B. Magalhães
(Docente EACH/USP, socióloga e coordenadora do Projeto de Extensão “Amigo é o Bicho”)
amigoeobicho@usp.br
www.each.usp.br/amigoeobicho

A presença de animais no campus não é desconhecida de nenhum de nós. Ela tem suscitado opiniões e atitudes diversas, resultando em distorções por parte dos que se aventuram a refletir sobre o tema, suas causas e soluções. Supõe-se que apenas por estarmos na universidade já tenhamos a saída correta para qualquer tipo de problema. A questão, porém, não é simples. O presente artigo propõe a elucidação de alguns fatores que compõem a complexidade do tema. Espera-se conscientizar o leitor criticamente sobre o “pano de fundo” que compõe o abandono de animais na EACH e no espaço urbano.

Ouvimos, com freqüência, idéias sobre soluções milagrosas que removeriam os cães de nosso espaço para nunca mais voltarem. A principal opinião é de que sua eliminação (pela “carrocinha” ou por qualquer outro meio) seria a melhor saída. Um desfecho positivo, entretanto, não se apresentaria de forma tão evidente. Se chamássemos a “carrocinha”, por exemplo, no dia seguinte teríamos novos cães no campus (devido à pobreza do entorno, à falta de informação sobre cuidados com animais, à visão mercadológica da vida e ao abandono), seria uma solução paliativa. Não adiantaria, por outro lado, criarmos um canil no campus, pois tal ação acabaria por incentivar o abandono.


Animais, entretanto, sofrem, precisam comer, beber e não têm culpa pela relação desequilibrada que criamos no meio urbano, ao serem retirados da natureza. Não há resultado simples e muito menos em curto prazo. A solução passaria por algo que combinasse educação, conscientização, investimento em castrações, intensificação de adoções e trabalho com a comunidade do entorno (nisso concordam os especialista em controle populacional de animais urbanos). Educar é preciso, são necessários, igualmente, paciência e respeito com os bichos.

O abandono de animais no campus não é recente. “Temos” cachorros desde a construção dos prédios. Em certos momentos, havia mais animais e, em outros, menos. Nasceram filhotes, animais morreram atropelados, outros foram embora ou expulsos, sofreram maus tratos e até foram adotados. Há pessoas que dispõem de seu tempo no cuidado com os bichos e há outras os ignoram ou os agridem. Esta é a nossa triste realidade.


Vale ressaltar que não temos como saber o número de animais que passaram pela EACH. Há uma variação de 7 a 10 cães periodicamente, mas o projeto “Amigo é o Bicho” está cadastrando os bichos. Sabemos, por alunos preocupados com animais, que houve uma média de 25 adoções desde 2005. O trabalho de sistematização destes números começou agora, mas o que se pode afirmar é que:
- há rotatividade de cães no campus, com dois “residentes” fixos, o Robinho e Pretinha,
- em períodos em que se conseguem adoções, o número de animais baixa consideravelmente (como aconteceu em janeiro de 2008, quando ficaram apenas 3 cães no campus)
- qualquer redução do número de cães não significa que o problema tenha sido solucionado porque sempre aparecem novos animais.


Tais dados levantam alguns questionamentos: por que o problema não acabaria com a simples eliminação? Seria culpa dos alunos e funcionários que alimentariam os cães? Seria por não chamarmos o Centro de Zoonoses para retirá-los? A resposta é “nenhuma das alternativas anteriores”. Se alimentar os cães fosse razão para sua permanência no campus, o contrário também seria verdadeiro: sendo os cachorros animais territorialistas, ficando expostos a maus-tratos e sendo constantemente expulsos do prédios, seria de se supor que o nosso espaço fosse um desestímulo para à sua presença, coisa que não acontece. Estudos recentes (II Fórum de Controle Populacional de Cães e Gatos do Estados de São Paulo) e dados da OMS (Relatório de 1992) têm mostrado que a eliminação (sacrifício) de animais urbanos não diminui o excedente populacional.
Mas qual seria, então, a saída? Entender a complexidade e o contexto do abandono de animais no meio urbano seria o primeiro passo para uma solução de longo prazo. Pesquisadores têm reforçado o argumento de que a diminuição do excedente populacional precisaria abarcar uma combinação de políticas públicas no sentido do incentivo à adoção, da castração, da educação pela guarda responsável e de ações junto às comunidades para conhecer e combater as causas do abandono.


Pensando a questão do ponto de vista local, a instituição USP não teria por responsabilidade cuidar dos animais, bem como não a teriam aqueles que usufruem do campus. Entretanto, como universidade que não está isolada dos problemas que a cercam ou como cidadãos que cada um de nós somos, teríamos sim a ver com isso. Por quê? Porque o excedente populacional de animais urbanos é um problema social, ecológico e filosófico. Social porque está relacionado à pobreza e à falta de informação, ecológico porque resulta de uma relação histórica desequilibrada entre homem, animais e natureza e filosófico porque é decorrente de uma noção de que o homem seria superior aos animais.


Na relação histórica com os bichos, o homem tem se colocado como detentor dos direitos de usá-los e explorá-los, estabelecendo uma cadeia hierárquica de formas de conhecimentos e percepção do mundo em que a racionalidade ocuparia o topo. Tal posicionamento considera os animais como objeto e não como sujeitos de direito. Dessa forma, busca-se justificar fazermos deles o que bem entendemos, tratando-os como máquinas ou coisas que podem ser jogadas fora ou vendidas como meros produtos.


A condição de objeto os torna mais vulneráveis. Como coisas, os animais são reproduzidos em massa, servindo ao consumo e ao lucro. A produção de cães, gatos e outros bichos para venda e o tráfico de animais silvestres são apenas algumas das formas de satisfazer impulsos consumistas de pessoas que não têm a menor idéia do que seja a responsabilidade de cuidar de um animal. Está aí a principal razão de abandono e de maus-tratos.


Falta de informação sobre castração, sobre cuidados ou características dos animais adquiridos acaba em caos populacional. Soma-se a tudo isso a desigualdade social, que agrava o problema, pois o acesso à educação pela guarda responsável e aos cuidados básicos com os bichos é negado pelo Estado, especialmente aos menos favorecidos. Além disso, a ausência do poder público nas áreas pobres em relação ao controle de zoonoses piora situação.


Na ponta do iceberg, estão os animais. Esquecidos enquanto seres vivos e como sujeitos de direito, ficam à mercê da boa vontade humana. Eliminá-los não seria a solução porque abandono e excedente populacional de animais é um problema social, filosófico e ecológico. O sistema se reproduz e o ciclo continua. A eliminação seria como o remédio para uma dor cujas causas não foram prevenidas. No caso dos bichos, é mais cruel, pois tratam-se de vidas.


Mudar nossas ações em termos de cidadania e também repensar nossa atitude em relação aos bichos e a natureza é o único caminho para que o problema diminua. Este seria um primeiro passo. É preciso entendermos que o abandono de cães na EACH tem a ver com complicações mais gerais de nossa cidade e do mundo.


É claro que você não precisa passar a gostar de bichos de uma hora para outra. Nem mesmo ter um pet em sua casa ou sair fazendo carinho nos cachorros da rua. Basta não atrapalhar e reconhecer a complexidade da questão. Ver os cães com novos olhos. Compreender sua fragilidade diante do poder humano.


Para os animais, não existe propriedade privada (o campus, a rua ou a minha casa), eles não entram ali porque são invasores. Há, para eles, apenas um mundo do qual fazem parte e ao qual têm direito, como cada um de nós. Os animais também fazem jus à vida e à dignidade, precisamos reconhecer isto.


Entenda, portanto, que não dá para tirarmos os cães do campus de uma hora para outra. O projeto “Amigo é o Bicho” conseguiu, recentemente, negociar um espaço para que os cães fossem alimentados de forma a evitar que invadam os restaurantes e prédios. É muito importante que todos respeitem o local destinado à alimentação porque antes não podíamos sequer dar comida a eles sem sofrer represálias.


Se quiser fazer bem aos animais do campus, ajude-nos a manter a conquista desse local para alimentação, evitando dar comida ou pedaços de lanche fora do espaço permitido. Vale lembrar que há diferentes opiniões sobre o destino dos cães, as reclamações sobre animais nos prédios e restaurantes chegaram a um limite e precisamos evitar tal conflito.


Caso queira ajudar os bichos, você poderá também buscar um “adotante” para ficar com os cães do campus. Outra alternativa é colaborar com vacinações (há alunos ligados ao projeto que os vacinam, tirando dinheiro do próprio bolso. Contate-nos para saber como participar) ou patrocinar sua estadia em uma Ong (pagamento de mensalidade e ração). Se não quiser ajudá-los, apenas fique longe deles. Se não gostar de animais, o melhor a fazer é não atrapalhar, pelo menos entenda a complexidade do problema. Evite ser agredido não tocando em um cachorro que não conhece. Antes de oferecer carinho, mostre o dorso de sua mão para que ele saiba que não está sendo ameaçado.


Nós, do projeto Amigo é o Bicho, sabemos perfeitamente que o campus da EACH não é lugar para animais, já que eles ficam expostos a maus-tratos e atrapalham nossa rotina. Temos consciência, entretanto, de que os bichos não têm culpa da situação na qual estão submetidos e que não têm para onde ir, a não ser que sejam adotados ou sacrificados. Entendemos, outrossim, que nenhuma solução seria efetiva, a não ser em longo prazo. Acreditamos na diminuição dessa população no decorrer dos anos a partir de ações combinadas do projeto e da colaboração de todos.


Finalizo o presente texto lembrando que, como cidadãos, cada um de nós é responsável pelo equilíbrio e harmônia na relação homem, natureza e animais, afinal, somos todos uma coisa só.

Valéria Magalhães (26/10/08)

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